GARIMPEIROS DO MAR

Os catadores de marisco de Tubul gostam de dizer que os chilenos são um povo resiliente. Devem pensar em si mesmos. Eles vivem uma das vidas mais difíceis que já vi. As horas que passam no convés de seus botes, expostos ao frio, ao vento e à chuva são horas duras e muitas. As horas que passam debaixo de seus botes, pressionados pelo peso da água e a urgência de coletar mariscos são horas ainda mais duras e mais numerosas. A cada descida, noventa minutos dentro d’ água, ligados à superfície pelo vínculo incerto de uma mangueira que empurra ar aos seus pulmões, 40 quilos de mexilhões acumulam-se na cesta que arrastam atrás de si. Em um dia normal, são 3 descidas. Em uma semana normal, cinco dias de trabalho. No verão, a água é gelada. No inverno então...

Entre esses mergulhadores, contam-se histórias de proezas impossíveis, de homens que nadam sem pernas, sem braços, que sozinhos trazem à tona centenas de quilos de mariscos. Contam-se também tragédias abissais, de incautos que, presos por correntes geladas vindas das profundezas, perdem os sentidos e morrem azulados.

Num 10 de fevereiro, no meio da madrugada, a vida desses catadores, que já era difícil, tornou-se quase impossível. Um terremoto de inimagináveis 9 graus devastou a sua vila. Três horas depois, um tsunami levou o que havia sobrado. Quando conheci esses homens e essas mulheres (pois também há mergulhadores mulheres), a maioria ainda esperava recuperar a sua vida de antes, um lar, melhores barcos, compressores confiáveis, e trajes de mergulho sem rasgos. A perspectiva, no entanto, era a pior possível. Foi essa a luta que procurei registrar. Parte das fotos foi usada no livro Bordemar.