CARTAS D'ÁFRICA

O projeto "Cartas d’África" resgata capítulo pouco conhecido da história das relações entre o Brasil e o continente africano: o retorno de escravos brasileiros ao Golfo da Guiné no século XIX. A pesquisa original tem como origem projeto jornalístico realizadodo e publicado, em 1999, no jornal Correio Braziliense. A reportagem também apareceu nos jornais Folha de São Paulo e O Dia, além das revistas Veja, Isto É e Ícaro.

Entre as décadas de 1830 e 1900, cerca de 8 mil escravos libertos deixaram o Brasil de volta a seu continente de origem. Levaram consigo, no entanto, marcas da cultura brasileira que ainda hoje os distinguem em países como Nigéria, Benin, Togo e Gana. São africanas no cotidiano, mas brasileiras na memória.

Quase duzentos anos depois de os primeiros retornados haverem cruzado
 o Atlântico de volta à África, o Brasil continua sendo presença constante nos hábitos culturais dessa comunidade, seja no Benin, na Nigéria ou em Gana. Influências brasileiras sobrevivem na culinária local, com pratos típicos consumidos em ocasiões festivas; no folclore, com celebrações como a dança da Burrinha ou o carnaval de Lagos; na religião, com a força de um catolicismo trazido do Brasil e muito presente no dia-a-dia da comunidade; na permanência de palavras e expressões portuguesas, que a maioria dos retornados esqueceu, mas alguns procuram hoje recuperar; e, principalmente, na arquitetura, que marca de brasilidade as fachadas de bairros inteiros em cidades como Lagos, Porto Novo e Uidá.

A trajetória desses “brasileiros da África” é a marca viva de um capítulo ao mesmo tempo triste e simbólico da nossa história. Triste porque remete à prática da escravidão, cuja barbaridade nenhum adjetivo consegue inteiramente descrever. Simbólico porque o elemento africano é parte indissociável da identidade nacional brasileira. O apego que os descendentes desses retornados demonstram pelo Brasil é revelador de um relacionamento que, havendo transcendido a dimensão histórica, é cada dia mais intenso.

As fotos e os depoimentos originais que compõem o projeto foram o produto de quatro diferentes viagens à África, entre 1999 e 2003, durante as quais mais de 50 famílias foram entrevistadas.

As "Cartas" do título são simplesmente mensagens dirigidas pelas famílias de retornados aos brasileiros em geral e aos seus "parentes" (pessoas com o mesmo sobrenome que vivem no Brasil), em particular. O conceito de parentesco adotado no projeto é mais simbólico do que real, pois é quase impossível estabelecer hoje uma relação concreta entre famílias com o mesmo sobrenome vivendo no Brasil e na África. Mais sobre o projeto aqui.